Wilson Simonal de Castro nasceu
no Rio de
Janeiro, em 23 de fevereiro de 1938. Simonal obteve
muito sucesso nas décadas de 1960 e 1970, chegando
a comandar um programa na TV Tupi, Spotlight, e dois programas na TV Record, Show em Si... Monal e Vamos
S'imbora, e a assinar o que foi considerado na época o maior contrato de
publicidade de um artista brasileiro, com a empresa anglo-holandesa Shell. Cantor detentor de esmerada técnica e
qualidade vocal, Simonal viu sua carreira entrar em declínio após o episódio no
qual teve seu nome associado ao DOPS,
envolvendo a tortura de seu contador Raphael Viviani. O cantor acabaria sendo processado e
condenado por extorsão mediante sequestro,1 sendo que, no curso deste processo,
redigiu um documento dizendo-se delator, o que acabou levando-o ao ostracismo e a condição de
pária da música popular brasileira. Seus principais sucessos são "Balanço Zona Sul", "Lobo Bobo", "Mamãe Passou
Açúcar em Mim",
"Nem Vem Que
não Tem",
"Tributo a
Martin Luther King", "Sá Marina" (que chegou a ser regravada por Sérgio Mendese Stevie Wonder, como "Pretty World"),
"País Tropical", de Jorge Ben, que seria seu maior êxito
comercial, e "A Vida É Só pra Cantar". Simonal teve uma filha,
Patrícia, e dois filhos, também músicos, Wilson Simoninha e Max de Castro. Em 2012, Wilson
Simonal foi eleito o quarto melhor cantor brasileiro de todos os tempos pela
revista Rolling Stone Brasil.
Filho de Maria Silva de Castro, uma cozinheira e empregada doméstica
mineira, e do também mineiro Lúcio Pereira de Castro, radiotécnico que havia se
mudado com sua mulher para o Rio de Janeiro, Simonal recebeu esse nome em
homenagem ao médico que realizou o parto. Mas,
por obra de seu pai, o que deveria ter sido Roberto Simonard de Castro acabou
tornando-se Wilson Simonal de Castro. Estudou
em colégio católico chegando inclusive a ter aulas de canto orfeônico ao participar do coral mudando-se
após para um colégio público. Na
praça Antero de Quental, onde jovens se reuniam para passar os fins de semana,
chegou a causar algum rebuliço cantando sucessos da época em inglês. Ali conheceu Edson Bastos, filho da
pianista Alda Pinto Bastos, que lhe ensinou a tocar violão e piano e com quem
pretendia formar um conjunto musical. Mas os planos de formar um grupo musical
foram interrompidos quando Simonal foi chamado para servir no 8º Grupo de
Artilharia de Costa Motorizado (8º GACOSM) e neste quartel, que era famoso pelo
seu time de futebol e pela sua banda, Simonal aprendeu a comandar platéias, já
que era chefe da torcida do time do quartel, além de ter participado de vários
bailes como cantor.
Em 1960, Simonal deu baixa do exército como sargento e, juntando-se ao irmão Zé Roberto e
aos amigos Marcos Moran, Edson Bastos e Zé Ary, adotaram o nome de Dry Boys. O
conjunto durou até os primeiros meses de 1961, quando se apresentaram no
programa Clube do Rock de Carlos Imperial, na TV Tupi. Depois da apresentação tentaram um
contrato com uma gravadora, por intermédio de Imperial, mas foram recusados.
Isto levou o grupo ao fim, com Simonal seguindo carreira solo sob a proteção de
Imperial, tornando-se também crooner do Conjunto Guarani. Com o fim dos
Dry Boys, Simonal ficou sem ter onde morar, já que morar na casa da sua mãe em Areia Branca e trabalhar na Zona Sul não era
possível. Carlos Imperial contratou-o como seu secretário, ao lado de Erasmo Carlos, e arranjou um modo de Simonal morar na casa de Eduardo Araújo que, ainda adolescente, morava em uma
quitinete alugada pelo seu pai, no Catete. Nesta
época, Simonal chegou a substituir Cauby Peixoto em uma apresentação na antiga Rádio
Nacional carioca, conseguindo um contrato. Entretanto,
a estada na casa de Eduardo Araújo não é longa e Simonal logo se muda para um
apartamento de Imperial. Numa das apresentações do Clube
do Rock conhece Tereza
Pugliesi, que viria a ser sua esposa, e começa a namorá-la. No mesmo ano
torna-se crooner da boate Drink, pela qual chega, inclusive, a
gravar duas faixas para um LP que só sairia em 1962. A sua exposição na boate lhe rende um
contrato com a gravadora Odeon pela qual lançaria, em dezembro de
1961, seu primeiro compacto com "Terezinha", um Chá-chá-chá de Imperial em homenagem a namorada
de Simonal, e "Biquínis e Borboletas". Ainda em dezembro, troca a Drink pela boate Top
Club. Nos anos de 1962 e
1963, sua gravadora lançaria mais três compactos de Simonal de modo a testar
sua receptividade em diferentes estilos musicais, antes de lançar seu disco de
estréia em novembro de 1963, Tem "Algo Mais". Neste
disco está "Balanço Zona Sul", seu primeiro sucesso nas
rádios. Pouco antes do lançamento do álbum, casaria com Tereza Pugliesi (já
grávida do primeiro filho do casal), em 24 de outubro de 1963. O álbum e a
música lhe dão maior exposição, provocando um convite da dupla Miele & Bôscoli para que ele deixasse oTop Club e passasse a se apresentar nos shows
que eles organizavam, conhecidos como "pocket shows". Simonal aceita e participa de várias
apresentações entre o início de 1964 e meados de 1965.
No dia 6 de abril de 1964 nasce seu primogênito, Wilson Simonal Pugliesi de Castro. Em julho de 1964, lança mais um
compacto com "Nanã" e "Lobo Bobo", recebendo boa acolhida nas rádios e abrindo espaço para a
gravação do seu segundo álbum, A Nova Dimensão do Samba, ainda
considerado por muitos como o melhor disco da carreira de Simonal. No final de
1964, chega a excursionar quarenta dias com a dançarina Marly Tavares e o
conjunto Bossa Três, do pianista Luís Carlos Vinhas, pela Colômbia com o show "Quem
Tem Bossa Vai à Rosa", o primeiro de Miele & Bôscoli que havia sido
pensado para um teatro de verdade, isto é, fora do circuito do Beco das
Garrafas. O sucesso no Beco e com as músicas gravadas trazem o interesse da TV
Tupi em produzir um programa apresentado por Simonal. Assim, em janeiro de 1965
assina contrato para apresentar o programa Spotlight, mudando-se para São Paulo. O programa era uma tentativa de tocar
músicas de modo mais "sofisticado" e com arranjos mais próximos ao
jazz americano da época, de Miles Davis e Gil Evans. Por isso, todos os seus lançamentos nesse ano seguem essa linha. Assim
são o álbum auto intitulado de março de 1965, o compacto do mesmo mês, o
compacto duplo de julho de 1965 - acompanhado pelo Bossa Três e no qual Caetano Veloso foi lançado como compositor com sua
música, "De Manhã" - e
o seu quarto álbum, S'imbora. Exemplo disso são os
arranjos de, entre outros, Eumir Deodato e J.T. Meirelles. Foi nessa época que defendeu
"Rio do Meu Amor", de Billy Blanco e "Cada vez mais Rio" de
Luís Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli, no I Festival da Música Popular Brasileira, da Tv Excelsior. Simonal
se mostrava antenado com a música que estava sendo feita no país. Além de ter
sido o segundo a gravar Caetano Veloso - sua irmã, Maria Bethânia, já o havia gravado, mas Simonal era mais conhecido - foi o segundo a gravar Chico Buarque, apenas depois de Geraldo Vandré (que havia defendido "Sonho de
um Carnaval" em 1965), mas antes de Nara Leão, frequentemente lembrada por ter sido quem lançou o
compositor carioca. Também foi o
primeiro a gravar Toquinho, defendo
uma canção sua, "Belinha", no III Festival da Música Popular Brasileira, de 1967.
Em janeiro de 1966, Simonal acabou o contrato de Simonal com a TV Tupi e
ele não queria renová-lo. Ao invés disso, assinou com a TV Record que era o maior canal de TV
brasileiro desde 1965, graças aos seus programas musicais, em especial O
Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues e que era o reduto da Bossa Nova e da canção de protesto, e ao programa Jovem
Guarda, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa e propagador do iê-iê-iê. Logo no início, Simonal já passou a
ser uma atração fixa no programa de Elis e Jair Rodrigues, mas participava
também do programa dos jovem guardistas, algo que só ele e Jorge Ben faziam. Neste ano, lançou mais dois compactos
em abril e maio de 1966, sendo que o segundo, "Mamãe Passou
Açúcar em Mim",
gravado para a trilha sonora do primeiro filme d'Trapalhões (Na Onda do Iê-iê-iê) e com a banda The Fevers acompanhando o cantor, estourou nas rádios e foi o maior sucesso de
Simonal até então. Na onda desse
novo sucesso, em agosto de 1966, Simonal firma uma parceria com o Som Três,
formado por Toninho na bateria, Sabá no baixo e César Camargo Mariano no piano,
para que o grupo o acompanhasse na carreira solo e no seu futuro programa que
deveria estrear ainda aquele ano. A
ideia de Simonal e César Camargo Mariano era misturar bossa nova, samba, a
nascente música soul americana, o jazz, a música de protesto e o rock que se
fazia por aqui na época sem perder a qualidade, mas fazendo um som que eles
definiam como "mais comunicativo", isto é, que se comunicasse melhor
com as massas do que a bossa nova. Este
novo som seria chamado futuramente de pilantragem, uma mistura de samba, iê-iê-iê e soul,
constituindo-se em verdadeiro movimento, capitaneado por Wilson Simonal, Carlos
Imperial e Nonato Buzar.
Simonal e o Som Três gravaram juntos pela primeira vez em 2 de fevereiro
de 1966, numa rápida viagem ao Rio de Janeiro, a música "Carango" de
Carlos Imperial e Nonato Buzar, que já havia sido gravada por Erasmo Carlos. A canção
fez ainda mais sucesso que "Mamãe Passou Açúcar em Mim", como que
garantindo que estavam na trilha correta. Estes nove meses nos quais Simonal
trabalhou na Record sem programa próprio serviram para que ele adquirisse
experiência e ensaiasse com o seu conjunto. E às 20h20m do dia 20 de outubro de
1966, estreou o seu programa "Show em Si... Monal", tendo entre os seus
roteiristas Miele, Bôscoli, Carlos Imperial e Jô Soares. Nos
intervalos do programa que, como era gravado, precisava, de quando em quando,
parar para as trocas das fitas de rolo, Simonal entretinha o público com
piadas, imitações e algumas músicas despretensiosas. Foi assim que surgiu a
ideia de gravar "Meu Limão, meu Limoeiro" que, já sendo
"sucesso" nos intervalos do programa, sairia no álbum Vou
Deixar Cair, o quinto de Simonal. Este
disco, que saiu em novembro de 1966, já começava a explorar a ideia da
pilantragem, recorrendo a uma mistura de compositores e estilos, tudo
"amalgamado" pelos arranjos de César Camargo Mariano. Ou, nas
palavras de Sabá em depoimento para o jornalista Ricardo Alexandre, era algo
que "não era iê-iê-iê, não era bossa-nova, não era canção de protesto, não
era jazz, mas era tudo isso e era algo completamente diferente". Em setembro defendeu "Querendo
Ficar", composição de Johnny Alf, no primeiro festival da Record, e em outubro defendeu, juntamente com
o MPB4,
"Maria", deFrancis Hime e Vinicius de Moraes, no Primeiro
Festival Internacional da Canção. Capítulo singelo na história não só de
Simonal como também da música popular brasileira é a campanha ou happening do Mug. Mug era um boneco de
"pano preto, redondo e sem pescoço, com os olhos esbugalhados, cabelos
vermelhos e calça xadrez ao estilo escocês, que virou febre ao ser vendido como
amuleto da sorte para o Ano-Novo de 1967". Os mais variados artistas e
personalidades participaram da campanha, como o Zimbo Trio, Chico Buarque, Ari Toledo, Hebe Camargo e Maurício de Sousa, além, é claro, de Simonal.
Aproveitando o momento, Simonal estreou em dezembro um show produzido por Miele
& Bôscoli no Teatro Princesa Isabel, em Ipanema. O nome era "Mugnífico
Simonal" e trazia o cantor acompanhado da sua banda, o Som Três, cantando
músicas e realizando alguns esquetes.
Na temporada no Teatro Princesa Isabel com o show "Mugnífico
Simonal", o cantor escreveu nos bastidores uma música com Ronaldo Bôscoli.
Nela assumia-se negro e falava em luta, em uma reflexão sobre Martin Luther
King Jr., pastor
americano ícone na luta pelos direitos civis naquele país. A canção foi tocada na
temporada do show e gravada pela banda em 28 de fevereiro de 1967, mas, como era de se imaginar, ficaria
retida na censura por quatro meses. Ainda
assim, na entrega do troféu Roquete Pinto para os melhores do ano, Simonal
cantou a música para um Teatro Paramount lotado, fazendo um discurso. O compacto
foi lançado em junho de 1967 e estreou direto no primeiro lugar na parada do IBOPE. No mesmo mês, houve a gravação de um
álbum ao vivo e duplo para comemorar o primeiro aniversário do show. Realizado
no mesmo Teatro Paramount onde ocorria o programa de Simonal, encerrou com
quatro mil pessoas cantando em uníssono "Tributo a
Martin Luther King". Em setembro de
1967, lançou mais um compacto, "Nem Vem Que
não Tem",
que fez um sucesso imenso, só ultrapassado na carreira do cantor por "Sá
Marina" e "País Tropical". No dia 6 do mesmo mês, o programa de
Simonal na TV trocou de horário e de nome e ganhou a participação de Chico Anysio, passando a chamar-se Vamos S'imbora e deixando as 22h40m de domingo para
passar para as 20h10m de quarta-feira.
No famoso III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, Simonal foi indicado
como intérprete por tantos compositores que a organização abriu uma exceção
para que ele apresentasse uma música em cada uma das três eliminatórias. Assim, o cantor defendeu "Balada
do Vietnã", de Elizabeth Sanches e David Nasser, vestido de guerrilheiro; "O Milagre", de
Nonato Buzar, com um grande crucifixo no peito; e "Belinha", de
Toquinho e Victor Martins, "vestido de pilantragem". No mês seguinte sairia o próximo
álbum de Simonal e o primeiro de quatro a se chamar Alegria,
Alegria!!!, bordão que Simonal usava na televisão e que Caetano Veloso
pegou emprestado para usar como nome de uma música no festival do mês anterior. O disco era pilantragem pura, com
várias cantigas de roda, palmas, muita gente no estúdio durante a gravação e
alguns sucessos, como "Vesti Azul".
Em junho de 1968, Simonal lançou "Sá Marina", uma música que
seria o segundo maior sucesso de sua carreira e o maior até então. O arranjo de
César Camargo Mariano tornava a música delicada, quase um soul. A música também
tornou-se o maior "cartão de apresentações" de Simonal no exterior,
tendo sido gravada por Sérgio Mendes, Herp Albert & Tijuana Brass e Stevie
Wonder como "Pretty World". Um
mês depois estrearia um novo show pra teatro do cantor. "Horário
Nobre" era dirigido por João das Neves, que era egresso do Centro
Popular de Cultura da UNE e visto como um diretor de teatro
combativo e político, e estreou
no Teatro Toneleros em julho de 1968. O
show foi sucesso de crítica por ser tido como menos óbvio já que não trazia
simplesmente sucessos de Simonal ("Meu Limão, meu Limoeiro" nem
constava do show), mas continha momentos diferentes como interpretações de Cole Porter e George Gershwin. Também
tinha comentário político, com Simonal se solidarizando com os atores da peça Roda Viva, que haviam apanhado de membros do Comando de
Caça aos Comunistas, um grupo paramilitar da época. Em agosto de 1968, saiu o segundo
disco de Simonal com o nome Alegria, Alegria, tendo como
subtítulo Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga. Este segundo
disco continua na guinada do cantor em direção a um som mais próximo ao soul e
ao funk estadunidenses. Além de "Sá Marina", o álbum traz também
"Zazueira", de
Jorge Ben e, puxado por essas músicas, teve boa vendagem no mercado fonográfico
nacional. Em outubro, o cantor e
sua banda tocaram no Olympia em Paris, aproveitando para tocar também na TV
daquele país e realizar uma pequena turnê internacional. Voltando ao Brasil,
começaram os preparativos para mais um show teatral de Simonal, que seria
batizado "De Cabral a Simonal", que estreou em janeiro de 1969. Este foi seu show de maior sucesso de
público, rodando o país todo. Um
dos pontos altos do show era protagonizado por seu coreógrafo, Gerson Côrtes. Utilizando um jogo de luz e sombras ele aparecia no palco dançando
enquanto Simonal aparecia no fundo dos teatros, dando a impressão que estava em
dois lugares ao mesmo tempo. Graças
ao sucesso do show, Gerson conseguiu gravar um compacto pela CBS, "Não Volto mais Aqui".
Anos depois, faria sucesso como Gerson King Combo.
Em janeiro de 1970, Simonal excursionou pela Europa como embaixador do
FIC daquele ano e aproveitou para promover a sua própria carreira além-mar,
tendo conseguido que todos os nove músicos que compunham sua banda (o Som Três
mais os "metais com champignon", como o cantor chamava o naipe de
metais) acompanhassem a comitiva. Apresentou-se no Midem, na França, na TV RAI da Itália, chegando
a gravar uma versão em italiano de "País Tropical" para ser lançada
naquele país, e também na televisão portuguesa. Ao voltar ao Brasil, gravou o novo
hino do FIC. Após temporada na boate Sucata no início do ano, Simonal e sua
banda embarcaram para o México em maio de 1970 para acompanhar a Seleção
Brasileira de Futebol na Copa do Mundo
daquele ano. Antes da
viagem, na qual faria apresentações na boate El Dorado, em Guadalajara, e uma
temporada de quarenta e cinco dias no hotel Camino Real, Simonal deixou
gravadas quatro músicas para o lançamento de um compacto duplo em junho daquele
ano, contendo, entre outras, "Aqui É o País do Futebol" de Milton Nascimento e Fernando Brant, para que pudesse se ausentar do
país deixando algo pra ser lançado. Lá,
o cantor conquistou o povo mexicano, em uma estratégia planejada por João Havelange para que a equipe se sentisse em
casa, e participou ativamente da vida do time, conseguindo acesso livre à
concentração, além de ter chegado a lançar um álbum em solo mexicano, México
'70, que viria a ser lançado no Brasil apenas quarenta anos depois. Em 24 de junho de 1970, estreou o
filme É Simonal, indo na onda dos filmes com músicos que existiam à
época. Dirigido por Domingos de
Oliveira, que
havia dirigido o sucesso Todas as Mulheres do Mundo e trilha sonora de Erlon Chaves. O filme naufragaria nas bilheterias
em 1970, devido ao fato de ter que competir com Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa, maior bilheteria do ano no Brasil, e, depois, com Let It Be, dos Beatles. Em 1971, no seu relançamento, o filme
não conseguiria atrair boas bilheterias novamente, devido a aparição de Simonal
nas páginas policias. No dia 19 de agosto, Simonal e sua
banda entraram em estúdio e gravaram o que ele chamava de "músicas
nativistas", e que
incorporavam uma visão ufanista do país. Assim,
além do hino do FIC, gravado mais cedo aquele ano, incluíam também "Que
cada um Cumpra o seu Dever", do próprio cantor, e "Brasil, Eu
Fico" e "Resposta", ambas de Jorge Ben Jor. Esta última canção era uma resposta
à "Paris Tropical", de Juca Chaves, canção esta que, por sua vez, era uma sátira à "País Tropical".
Para conseguir aumentar a entrada de dinheiro, Simonal decidiu renegociar
o contrato que havia assinado com a Rede Globo para participar do Festival
Internacional da Canção de 1970, além de pedir um programa semanal na grade da
emissora. Boni e Walter Clark negaram-se a rever contratos, mas
prometeram estudar a proposta de um programa. Simonal insatisfeito acabou
brigando com os dois. Quando o cantor tornou a briga pública, no programa de
Flávio Cavalcanti da semana seguinte, a Globo decidiu boicotar o cantor. Assim, antes mesmo do fim do contrato
com a Shell, que se daria em março de 1971, Simonal começou a desmontar a
estrutura da sua empresa, antevendo a diminuição de receitas. Como acreditava que estava sendo
lesado e suspeitava de todo mundo, rompeu com todos: Magaldi, Brizolla e
Viviani. O contador foi demitido, tendo Simonal alegado "incompetência
profissional". Só que, como
Viviani havia sido trazido de São Paulo para o Rio de Janeiro por Brizolla e o
aluguel de seu apartamento era pago por Simonal, que também era o seu fiador, o escriturário, desempregado parou de
pagar o aluguel e entrou com uma ação trabalhista contra Simonal. Simonal ficou com muita raiva: havia
perdido seu apartamento, seu escritório, seus funcionários, sua banda, seu arranjador
e estava vendo seu sucesso e prestígio ruírem. Para completar, agora estava
respondendo a dois processos por causa de pessoas que o cantor acreditava que o
haviam roubado. Simonal queria
que Viviani confessasse o desfalque que ele acreditava que havia ocorrido e,
para conseguir isso, recorreu a alguns policiais, agentes do DOPS. Eles criaram uma história toda para justificar
a "ajuda" que prestariam a Simonal como uma ação legal. A
história era baseada em uma declaração que Simonal assinou no DOPS no dia 24 de
agosto. Nela o cantor dizia que vinha recebendo ameaças anônimas e que
acreditava que essas ameaças eram feitas por seu ex-contador, Raphael Viviani. No dia seguinte, os policiais Hugo
Corrêa de Mattos e Sérgio Andrade Guedes foram até a casa de Viviani e
identificaram-se como "policiais do DOPS a serviço de Simonal",
levaram o escriturário para a sede da Simonal Produções Artísticas e revelaram
que queriam que ele confessasse o desfalque. Como
Viviani negou por quase uma hora qualquer desvio, foi levado para a sede do
DOPS, comandada por Mário Borges. Como continuava a negar, foi torturado,
aceitou assinar uma declaração confessando o desfalque. O que os policiais do DOPS não
esperavam era que, após quase 20 horas sem notícias do marido, a mulher de
Viviani fosse à polícia prestar queixa de sequestro, contando a história de
dois homens que foram a sua casa. Na
sexta-feira, dia 27, logo após a realização de exame de corpo de delito que
confirmava que Viviani havia sido vítima de tortura, quinze policiais foram
destacados para encontrar Wilson Simonal e levá-lo para depor. Simonal manteve-se fiel à sua
declaração do dia 24 de agosto e, após o depoimento, o delegado Ivã Santos Lima
enviou uma cópia para a imprensa. O inquérito policial foi finalizado e
enviado ao promotor Pedro Fontoura, que em 21 de julho de
1972 ofereceu denúncia pelos crimes de extorsão e extorsão mediante sequestro
contra Wilson Simonal, Luiz Ilogti (seu motorista), Mário Borges, Hugo Corrêa
de Mattos e Sérgio Andrade Guedes. A
sentença de primeiro grau saiu em 11 de novembro de 1974 e o juiz João de Deus
Lacerda Menna Barreto inocentou o segundo e o terceiro réus, ficando os outros
três condenados a cinco anos e quatro meses apenas pelo crime de extorsão. Simonal foi preso imediatamente e
passou nove dias na cadeia até que os três desembargadores da 3ª Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro concedessem, por unanimidade,
um habeas corpus para soltar o cantor. No
dia 03 de julho de 1976, saiu o resultado da apelação e Simonal, bem como os
dois policiais, tiveram o crime reclassificado de extorsão mediante sequestro
para constrangimento ilegal e a pena mudada para seis meses, a serem cumpridos
no regime aberto. No final
daquele mesmo ano Simonal estaria quite com a justiça brasileira.
A acusação de extorsão mediante sequestro pegou a carreira de Simonal em
um momento delicado de redefinição: alguns críticos acreditam que Simonal fazia o
movimento de guinada para um estilo mais próximo ao soul e ao funk, mas este
movimento nunca foi completado devido aos problemas não musicais que acabaram
criando problemas musicais (como a dificuldade em arranjar repertório e
apresentações). Entre junho e
agosto de 1971, Simonal gravou Jóia, Jóia, seu último trabalho pela Odeon e o primeiro sem o
Som Três, marcando a estréia de Sérgio Carvalho como pianista e arranjador do
cantor. Sem um grande sucesso radiofônico, o disco não obteve boas vendagens,
tendo apenas a música "Na Galha do Cajueiro" tocado no rádio.
Simonal, em busca de novos ares, resolveu abandonar a Odeon e seu empresário,
Marcos Lázaro, conseguiu para o cantor um contrato com a Philips de André Midani. Em 1972, já na nova gravadora,
Simonal gravou Se Dependesse de Mim. O disco,
produzido por Nelson Motta, deveria ser a redenção de Simonal. Entretanto, a
fama de delator que o cantor foi, progressivamente, adquirindo
após o episódio do contador acabou por contaminar a reação da crítica
especializada ao trabalho: os jornalistas escreviam mais sobre as atividades do
cantor com o DOPS do que sobre o disco. Ainda
assim, o álbum vendeu 14 mil cópias, volume considerado baixo para um artista
popular como Simonal, mas comparável ao que vendiam Caetano Veloso e Os
Mutantes, por exemplo. Assim, a
ideia da gravadora para melhorar as vendagens foi "reenquadrar" o
cantor como um cantor de partido-alto ou de sambão ou samba-jóia, já
que o samba vivia um bom momento, com Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalho, Benito di Paula e a dupla Antônio
Carlos e Jocáfi. Jair Rodrigues havia feito o mesmo movimento com
muito sucesso (cantando "Festa para um Rei Negro") e o resultado
parecia, para a gravadora, promissor. O disco lançado deste
"reenquadramento" é Olhaí, Balândro... É Bufo no Birrolho
Grinza!, lançado em novembro de 1973, e, embora não seja considerado
ruim musicalmente, mostra a patente falta de convicção dos músicos: o maestro
Sérgio Carvalho não conseguia fazer valer a sua opinião (e a dos músicos) e
isso dava em um resultado muito frouxo musicalmente. Apesar disto, o álbum teve uma música
que chegou às rádios populares ("Dingue li Bangue") e vendeu mais do
que o seu antecessor (21 mil cópias).
A década de 1980 começou com Simonal tornando-se
"independente": o cantor trocou de empresário e soltou alguns
lançamentos pela WM Produções e com arranjos em grande parte feitos pelo
próprio cantor, utilizados apenas para gerar alguma mídia e proporcionar
repertório para os shows, carro chefe da carreira de Simonal após o episódio do
contador. Na primeira metade da
década, Simonal lançou apenas dois discos (Alegria Tropical e Simonal)
e dois compactos que trazem de novo apenas a estréia fonográfica de seu filho, Max de Castro, então com dez anos. Simonal
passaria mais de uma década sem lançar nenhum disco no mercado brasileiro e,
com seus discos clássicos fora de catálogo, caiu em absoluto esquecimento. Apesar de não lançar discos, continuou
fazendo shows pelo país todo, agora trocando os grandes espetáculos por
pequenas temporadas em boates, churrascarias e pequenas casas de shows. Com
o passar dos anos Simonal foi tornando-se alcoólatra, bebendo principalmente uísque. O
consumo da bebida anestesiava as pregas vocais que eram forçadas pelo cantor sem que
este percebesse. Com isso, Simonal foi gradativamente perdendo a capacidade
vocal, chegando aos anos 90 com a voz muito debilitada. O disco Os
Sambas da minha Terra, lançado em 1991, foi gravado apenas graças a uma
fã que pagou as horas de estúdio, os músicos e o cachê de Roberto Menescal
produzindo e arranjando. O próprio Menescal ofereceu-o a todas as grandes
gravadoras brasileiras, mas só conseguiu o lançamento pela Columbia da Venezuela, que era dirigida por um amigo seu na época. Simonal ficou muito deprimido nesse período, recuperando-se apenas
com o segundo casamento, com Sandra Cerqueira em 1994. Em 1994, saiu A
Bossa e o Balanço, primeiro registro de Simonal na era do CD, contendo
seus principais sucessos, a coletânea lançada pela WEA foi o responsável por apresentar
Simonal a toda uma nova geração No dia 25 de março de 2000, Simonal fez o seu
último show, no Espaço Memphis, um bar em Moema. Alguns dias depois foi internado no Hospital
Sírio-Libanês,
recebendo visitas de Jair Rodrigues e, inesperadamente, de Geraldo Vandré. O cantor faleceu em 25
de junho de 2000, vítima de uma cirrose hepática decorrente do alcoolismo.
O processo de reabilitação do cantor na memória coletiva é já longo.
Começou no início dos anos 90 quando Simonal obteve documentos da Presidência
da República que, informavam que nada fora encontrado sobre a associação do
cantor com os serviços. Assim, o cantor voltou a aparecer na mídia como uma
vítima do clima da ditadura militar. Em 2002, a pedido
da família, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB) abriu processo para apurar a
veracidade das suspeitas de colaboração do cantor com os órgãos do regime
militar. A comissão analisou documentos da época, manteve contato com pessoas
do meio artístico, como o comediante Chico Anysio e os cantores Ronnie Von e Jair Rodrigues, e analisou reportagens publicadas
nos jornais. Em notícia veiculada em 1992 pelo Jornal da Tarde, por exemplo, Gilberto Gil e Caetano Veloso, oficialmente perseguidos pelo
regime militar, declararam não ter tido problemas de convivência com Simonal,
sendo que Veloso ainda elogiou as qualidades de Simonal como artista. Além de
depoimentos de artistas e de material enviado por familiares e amigos, constou
do processo um documento de janeiro de 1991, assinado
pelo então secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, no qual atestava que, após pesquisa realizada nos arquivos de órgãos
federais, como o SNI e o Centro de
Informações do Exército (CIEx), não foram encontrados
registros de que Simonal tivesse sido colaborador, servidor ou prestador de
serviços daquelas organizações. Em 2003,
concluído o processo, Wilson Simonal foi moralmente reabilitado pela Comissão
Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB), em julgamento simbólico. Em 2009, foi
lançado o documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, dirigido por Claudio Manoel (da troupe Casseta &
Planeta), Micael
Langer e Calvito Leal, que tenta resgatar a trajetória de vida do cantor,
baseando-se em depoimentos e traçando um retrato simpático ao cantor, apesar de
contar com um longo testemunho de Raphael Viviani. O filme mostra que a
popularidade do cantor chegou a rivalizar com a dos artistas da Jovem Guarda e chega a conclusões sobre o seu
ostracismo, sobre o qual Claudio Manoel chegou a dizer que Simonal "pagou
uma pena dura demais, desproporcional ao que ele fez, porque sua condenação foi
até o fim da vida. Para ele, não teve anistia". Em 5 de setembro de 2012, o Jornal
do Brasil publicou matéria
na qual divulgou documentos de 1971 considerados secretos pelos militares, onde
constavam nomes de artistas tidos como simpatizantes da ditadura e que por isso
estavam supostamente sendo perseguidos por publicações como O
Pasquim e A
Última Hora; dentre nomes como Agnaldo Timóteo, Antônio Marcos, Clara Nunes, Wanderley Cardoso e Roberto Carlos, entre outros, estava também Wilson
Simonal.
Fonte: WIKIPÉDIA
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